Duas figuras, dois personagens de Brasília

Posted by marcio_leal in Jan 23, 2012, under Marcelo Torres

Marcelo Torres*

Brasília tem dois tipos de moradores que são a cara da cidade. Dois retratos, duas“instituições” que marcam o cotidiano da capital do país.

O primeiro não é benquisto por essas bandas, um tipo meio maldito e bastante temido. Ele é um jovem brasiliense, ainda vai fazer 17 anos, e pode ser visto na cidade a cada dois quilômetros. Está sempre firme, ligado. É um tipinho imponente, todo-poderoso, infalível, absoluto. E mais: é um tipinho frio, calculista, impassível, rigoroso. Mas, reconheçamos, ele faz a lei num piscar de olhos – dura lex, sede lex.

Ele é um dos olhos da lei. Seus inimigos e desafetos, que não são poucos, vivem reclamando que ele só age às escondidas, meio disfarçado entre árvores, sempre à espreita para entrar em ação. Escondido ou não, é tido e havido como uma estranha criatura, um ser esquisito, parece até um extra-terrestre. As pessoas, sejam elas do bem ou do mal, tomam todo o cuidado do mundo ao passar pela figura. Pelo que se sabe, ele nunca matou índio nem garçom, e ainda assim é temido, muito temido esse jovem brasiliense.

Já o outro tipo, o seu xará, não tem lá esse poder todo. Nem é maldito ou temido; ao contrário, parece um coligado seu, um amigo que entra na sua casa e come à mesa. Uns o veem como um folgado, um entrão. Mas a maioria o tem em boa conta. Ele nasceu na Europa há um bom tempo, portanto já é um velhinho. Chegou ao Brasil pelo Rio de Janeiro, chamado para combater a febre amarela. Foi um dos pioneiros de Brasília, onde vive de comer migalhas e restos de comida.

Uns místicos e supersticiosos falam que a presença deste segundo tipo atrai insucessos, desgraças, infortúnios. Outros dizem que ele é querido e bem recebido em alguns países europeus; quando ele chega lá e canta, é sinal de boas novas, uma chuva esperada, uma surpresa agradável, um desejo realizado.

Bom, meus caros, antes que vocês morram de curiosidade, eu vou lhes dizer quem são esses tipinhos de Brasília: são os pardais. Sim, os pardais. Dois tipos de pardais que habitam essa cidade (o pardal passarinho, que tem asas, penas e não multa; e o pardal radar, que não tem asas, não tem pena e multa sem pena).

Os pardais dos primeiros parágrafos são os radares que fotografam placas de carros que ultrapassam os limites de velocidade. Já os pardais dos outros parágrafos são aquelas aves de nome científico passer domesticus, ou seja, os pardais pardais.

Os primeiros (os radares) vivem presos nos postes, não têm asa nem pena, portanto não voam – mas multam sem pena, multam que é uma beleza. Já os outros (passarinhos) vivem soltinhos da silva, folgados que só eles – têm asa e pena, portanto voam, mas não multam ninguém.

Os de pena e asas foram pioneiros em Brasília, como se Dom Bosco lhes tivesse revelado em primeira mão o suposto sonho que falava de uma terra prometida, que seria aqui nesses paralelos, de onde haveria de jorrar leite e mel – só que até agora não jorrou foi nada.

Os pardais povoam a cidade, às vezes parecendo os únicos habitantes. Ou os últimos.

Os de pena velam mortos nas cercas do cemitério, disputam milho com pombos na Praça dos Três Poderes e vivem cagando na cabeça da “Ceguinha” – o apelido da escultura que fica na frente do prédio do Supremo Tribunal Federal.

Eles ficam olhando a tudo e todos do alto dos prédios e fios elétricos. Depois voam para as árvores e para os parques, para cantarem com as gralhas, com as cigarras, com os bem-te-vis. Não raro beliscam migalhas na solidão do asfalto.

É cena comum, em Brasília, um pardal entrar na sua casa ou apartamento, no momento em que você senta para tomar café ou almoçar. Ele chega em silêncio, pousa à janela e fica olhando. Se você o espanta, ele voa, vai embora. Se você cala -como a consentir -, ele pula para a mesa ou para o chão, bica uns tiquinhos de alimentos, dá três saltinhos e voa de volta para a rua, feliz da vida.

Mas não pense você que é fácil a vida do passer domesticus em Brasília, essa cidade cheia de prédios espelhados, como se fosse a cidade dos espelhos. Nesses edifícios, eles não entram de jeito nenhum. Ao contrário, muitos deles morrem ao se chocarem com as paredes espelhadas. Um desses prédios é a suntuosa sede da Procuradoria Geral da República (PGR), onde todos os dias um funcionário recolhe, sobre os pés das paredes, dezenas de passarinhos mortos.

Por outro lado, os pardais multadores (radares) têm uma história curiosa. Eles nasceram em Brasília, portanto são brasilienses – ou candangos. Aqui eles surgiram em 1996, no Eixão. Foram dois: um na 111 Norte, outro na 110 Sul. Ou seja, os pardais nasceram nas asas desse avião chamado Brasília.

Quem deu o apelido de pardal foi um tal Moysalvo Albergaria, que era motorista de Luiz Miúra, diretor do Detran à época. A história é narrada pelo jornalista Antonio Vidal, no livro “É possível: as realizações do engenheiro Cristovam Buarque rumo a uma nova esquerda”, publicado pela Geração Editorial em 2006.

Li no livro que o então diretor do Detran queria que o nome do aparelhinho fosse pica-pau. Chegou a chamá-lo por esse nome, mas a ideia não vingou. Eu fico cá pensando: esse aparelhozinho deveria ser chamado de corvo, ou águia, ou urubu, ou coruja, corujão, corujinha, falcão. Mas o que “pegou” mesmo foi pardal.

“Moysalvo era alvo de gozações e cobranças sempre que levava o chefe para algum evento e ficava aguardando a hora de ir embora no meio de outros motoristas. ‘Pô, Moysalvo, seu chefe quer acabar com a gente. Agora é multa toda hora’, diziam. Em um desses encontros, Moysalvo respondeu que o sistema agora estava mais sofisticado. ‘É melhor vocês terem mais cuidado ainda porque, de agora em diante, o diretor está contratando uns pardaizinhos que vão ficar nos postes e vão dedurar quem correr demais’, disse. O diretor do Detran contou o caso a um jornalista, que publicou a história e o nome pegou. Os radares viraram pardais e são chamados assim em praticamente todo o país. Anos depois, já aposentado, o ex-diretor do Detran não resistiu e fotografou uma placa que viu no interior do Rio Grande do Sul. “Rodovia fiscalizada por pardal”. Mandou a foto para Moysalvo.” [VIDAL, 2006, p.163]

Eis aí a história desses xarás que são personagens da vida brasiliense. Aqui, não tem jeito, todo dia, de dia ou à noite, você vê os pardais. E não adianta você se esconder, pois eles também estão de olho em você. Sorria, você está sendo filmado. Filmado pelos pardais.

(*) Marcelo Torres, autor do livro “O bê-á-bá de Brasília” – marcelocronista@gmail.com

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Sexta 13 é melhor que segunda 10

Posted by marcio_leal in Jan 13, 2012, under Marcelo Torres

Por Marcelo Torres*

Hoje é sexta, 13 de janeiro de 2012…
Esse mito de que sexta-feira 13 é coisa ruim, dia de azar e agouro, é pura balela. Quem dera todo dia fosse sexta-feira, mesmo que fosse 13.

Ora, a sexta é o melhor dia da semana, é fora de concurso, é hors-concours.
Sexta é a sétima maravilha deste mundão cansado de guerra. Não importa se 13 ou 30. Nem se é 13 de agosto. Se é sexta, é boa, é ótima. Só um besta acharia uma sexta ruim, ainda que seja dia 13.

Que faça chuva ou faça sol, que chova canivete ou que o mundo pegue fogo, a sexta é linda, leve, solta, sexy, gostosa, desejada, maravilhosa, amada. Sexta é tdb, como tá na moda dizer “tudo de bom”. Aliás, o que tá mais na moda hoje é dizer “tudo de melhor”. Então, esta sexta é “tudo de melhor”.

Se este mundão um dia se acabar, será numa noite de sexta – louca, iluminada, profana, pervertida, fantasiosa.
O ser humano pinta o sete é na sexta, um dia que vale por sete, por oito, por mil.

As sextas são as oitavas d’Os Lusíadas, os noves-fora de todos nós e os desmandamentos, ops, os dez mandamentos das leis profanas.

Ó, sagrada e profana sexta!

Na sexta, você já acorda sorrindo ao vento, levanta alegre, leve e solto, o pé direito no chão, se benze contra olhado e agradece a Deus por mais uma sextinha.

Eu tinha um colega que vivia dizendo no trabalho: “Hoje é sexta, só trabalha quem é besta”. Todos riam, até o chefe, que dava aquela risadinha sem graça – mas ria.
Ah, se a semana fosse feita só de sextas! O mundo seria outro.

Como nem todo dia pode ser uma sexta sinfonia de Beethoven, faça de toda sexta a Sétima Arte ou a Sétima Maravilha desta vidinha mais ou menos.

Que a sexta traga sextas e cestas. De frutas, de flores, de fluidos, de festa. E que esta sexta seja 10.

Porque uma sexta, meus amigos, mesmo sendo 13, é sempre melhor que uma segunda 10, uma terça 11 ou uma quarta 12.

(*) Marcelo Torres é jornalista e cronista, autor do livro “O bê-á-bá de Brasília” – e-mail marcelocronista@gmail.com.

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As corrupçõezinhas contra a corrupçãozona

Posted by marcio_leal in Oct 21, 2011, under Marcelo Torres

Por Marcelo Torres*

No último feriadinho de 12 de outubro, como não tinha uma praiazinha para ir aqui em Brasília, lá fui eu atrás do trio elétrico da Marcha Contra a Corrupção. Afinal, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, ainda mais um trio que puxa uma marcha contra a corrupção.

Pelo correio eletrônico e redes sociais, centenas de amigos virtuais me chamaram para o evento (e não deram o ar da graça), todos certos de que, só por reenviarem a mensagem, já teriam “feito a sua parte”, estando, assim, livres do pecado da omissão e com um lugar de honra no reino dos honestos.

Então, todos estavam convocados para marchar contra essa coisa (a corrupção) que a gente só vê nos políticos, escolhidos pelos brasileiros (“os brasileiros”, esse termo abstrato que serve para falarmos da podridão geral sem nos incluirmos, como se não fôssemos brasileiros também).

Bombardeado, pressionado, eu fui, meio amarrado, meio sem querer ser maria-vai-com-as-outras e com muitas pulgas atrás da orelha. Afinal, quem está por trás da marcha? A quem interessa esse suposto ‘fato novo’ na política? Quem vai colher os louros disso? Qual será o resultado do protesto?

Mas fui. E levei duas canetas, um bloco e um gravadorzinho.

A concentração era no Museu da República, também chamado Museu Honestino Guimarães, em homenagem a um líder estudantil desaparecido na época dos militares [parece uma triste ironia o fato de Honestino, que vem de Honesto, ter morrido, não existir mais, ter virado museu].

Dali a marcha iria pela Esplanada até a PTP, que é a Praça dos Três Poderes, depois retornaria pela pista de volta da Esplanada até ser encerrada no museu. Como, porém, eu gosto de contrariar, fui pela contramão, andando de braços dados com o ceticismo e a desconfiança.

Comecei pela PTP, ali pela Pira da Pátria (aquele fogo aceso o dia todo). E a primeira coisa que vi foi um quarteto – dois meninos e duas meninas bonitinhas – com um cigarrinho de maconha, de mão em mão, de boca em boca. Decerto, uma corrupçãozinha de nada, já nos acostumamos a ver e ignorar.

Passei rápido pelos pombinhos, depois pelos outros pombos (os pombos sujos da praça), deixando para trás uns gatos pingados, carrinhos de pipoca e ambulantes. Aliás, até ali, os ambulantes eram os únicos gritando palavras de ordem. “Olha a cerveja!”, “Olha a água mineral!”. “Olha a sombrinha – 10 reais!”

Fui andando pelos poucos pontos de sombra que havia pelo caminho. Ao passar pelas palmeiras imperiais ao lado da pista, vi um rapaz forte, tatuado, óculos escuros e tênis bonito. Com uma vassoura amarela na mão, ele encostou no pé de uma palmeira e fez o que cachorro faz em poste.

Entre os marchantes que passavam, nenhum queria ver a cena, muito menos protestar (“Ué, aquilo não é corrupção, não?”). Vi que passou um repórter fotográfico, que poderia registrar a cena, mas a ninguém ali interessava aquele fato, que não renderia foto, pois não era o foco, não era a pauta.

E foi este mané aqui que caiu na besteira de perguntar, ainda que educadamente, por que o moço estava a fazer aquilo. “Véi, cê é viado ou que é?”, ele encrespou, grosso, inchado. “Vai tomar no…” e concluiu com aquela palavrinha de duas letras que é um palavrão.

Não tive outra opção a não ser “vazar”, para não ser mais um nas estatísticas de pessoas que morrem por motivos banais no cotidiano de Brasília, vítimas de jovens valentões. Então segui meu rumo, deixando para trás o mijão valentão da vassoura amarela em sua marcha anticorrupção.

Sozinho naquele solzão de queimar o juízo, me lastimei por não ter lembrado de levar um protetor solar, um óculos escuros, um bonezinho ou até mesmo uma sombrinha ou guarda-sol.

Nessas horas, nesses locais, aparece vendedor de tudo que é produto – falsificado, naturalmente. Ou pirata, como se diz. Ou “genérico”, o novo eufemismo. CDs e DVDs genéricos, sombrinhas, chapéus, óculos, bronzeadores, protetores solares, tudo genérico. Ali vendia-se (e comprava-se) de tudo.

Boa parte dos marchantes anticorrupção compravam alegremente os produtos piratas [se há quem venda é porque há quem compre]. “Olha o CD, DVD, Legião! Olha o CD, DVD…”, as palavras de ordem do camelô atraíam uma parte daquela legião urbana.

O som do trio elétrico dava o tom e o ritmo daquela balada. Após o famoso verso “Que País É Este?”, o som parava para ouvir a resposta do público. Uns trinta meninos e meninas uniformizados respondiam gritando: “É a porra do Brasil”.

A meninada se esgoelava, querendo fazer o grito chegar aos palácios vazios, aqueles prédios com suas portas e janelas fechadas e paredes mortas. O grupo carregava sobre mãos, ombros e cabeças um enorme pano com o desenho de uma pizza de trinta metros de diâmetro.

Eles até hoje não se conformam com absolvição de Jaqueline Roriz, filha do mandachuva Joaquim Roriz. Filmada recebendo dinheiro sujo de um esquema de corrupção, ela foi inocentada pelos colegas deputados. Os trinta meninos e meninas gritavam: “Ja-que-li-ne… Va-ga-bun-da!”.

Logo depois, outro cântico: “Voto secreto não! Eu quero ver a cara do ladrão”, entoavam uns, enquanto outros, após “cara do ladrão”, acrescentavam um “fila-da-puta!”. Do trio, de novo, vinha o verso “Que país é este?” E a molecada se esgoelando na resposta: “É a porra do Brasil”.

Os marchantes eram muito parecidos uns com os outros. Rostos de classe média. Tênis de marca. Roupas caras. Relógios dos bons. Pernas de academia. Dentes perfeitos. Sorrisos Colgate. “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, bem que o trio poderia tocar essa música, mas não tocou.

O cortejo passava pela frente de uma catedral. Parecia uma procissão. O feriadinho era de uma santa – a padroeira do Brasil e de Brasília. Só faltava uma santa. Ou um santo.

E não havia Santos. Pelo menos, entre as pessoas que ouvi, nenhuma tinha o sobrenome Santos. Parei três adolescentes: um era Luiz Felipe Cantarelli, a menina era Ingrid Sayão e o terceiro se chamava João Rollemberg. Sobrenomes pomposos, não eram de Jesus nem dos Santos nem Silva.

Peço a atenção dos três adolescentes e pergunto a eles: “E aí, vocês colam em prova escolar?”. Eles se entreolham, riem da pergunta, desconversam e não respondem. Refaço a pergunta, mas eles fogem, sorrindo, achando que eu estou brincando.

Depois fui a três adultos, sobrenomes Trevisan, Herrera e Alencastro [ou seja, nada de Santos]. Cada um chegara ali com seu carro. Cada um fechou seu veículo bem fechadinho, travando portas e janelas bem travadinhas. Ali só tem gente honesta, mas convém não dar mole…

Pergunto em quem eles votaram para deputado: dois deles se esforçam, espremem a memória, mas não lembram e começam a rir; o terceiro diz que votou num amigo para deputado distrital, mas não lembrou do partido nem lembrou do voto para deputado federal.

No primeiro turno da eleição presidencial, dois foram de Marina e um foi de Serra.

Os três disseram ter votado em José Serra no segundo turno. Enquanto isso, lá de cima do trio o locutor grita “A Marcha é apartidária, nada de bandeira, nada de bandeira, por favor!”.

No calorão entre o sol e o asfalto, há muita gente com latinha de cerveja na mão. São pessoas do sexo masculino, de seus 30 a 40 anos. Vejo cinco motoqueiros com jaquetas iguais, dois segurando latinhas, ou melhor, latões – todos eles bebem.

Encosto num grupinho de meninas. Parecem de classe média. A mais velha deve ter vinte anos. Elas olham para mim e eu lhes lanço uma pergunta: “Se eu perdesse uma nota de cem reais aqui no meio da marcha, qual seria a chance de alguém me devolver?”

A pergunta é séria, seriíssima. Mas elas riem, gargalham, como se fosse uma piada. Depois, uma delas fala: “É complicado isso. Se alguém achar a nota e ir lá em cima anunciar que achou, todo mundo vai lá dizer que perdeu, e aí não tem como saber de quem é o dinheiro”.

Pensei em dizer o seguinte: “Ué, mas se todo mundo da marcha vai subir lá no trio para querer o dinheiro, isso significa que todo mundo é desonesto”. Mas calei, agradeci, segui sem rumo certo, na contramarcha.

Ando em lugares que essas pessoas andam, conheço quase todas elas de vista, pois Brasília é um ovo de codorna. Já perdi relógio, celulares, cartão de consumo em festa e comanda de gastos em boate – acharam e não me devolveram. Aliás, no caso da comanda de consumo, em cinco minutos já haviam feito “a festa” às minhas custas.

Na marcha, vi centenas de homens com latinha de cerveja na mão [é bem provável que estivessem ali de carro e iriam dirigir após ter bebido]. Papéis, panfletos e copos descartáveis jogados no asfalto e no gramado. Decerto, corrupçõezinhas bobas, com as quais já estamos habituados.

Um advogado de 28 anos de idade está vestido com uma camiseta branca que mostra as torres gêmeas do Congresso Nacional e a frase: “Bin Laden, aqui em Brasília também tem torres gêmeas”. Fico pensando: e se Bin Laden atendesse ao pedido desse advogado, quantas mortes iríamos contar? O terrorismo não é tão nefasto quanto a corrupão?

Lá de cima do trio um dos organizadores fala: “Tivemos 16 mil pessoas”. “Não, foram 20 mil”, emenda outro. O subtenente Gilvan, da PM-DF, cravou:13 mil. Para a Globo e o Correio Braziliense, foram “mais de 20 mil pessoas”. Para a Record, 25 mil. A estatal Agência Brasil disse que eram 10 mil.

Números corrompidos pela imprensa. Decerto, uma corrupçãozinha de nada, já estamos acostumados com isso. Corruptos, porém, são os outros…

Quem pagou o evento?
Pergunta incômoda para os organizadores, que se rebolaram para responder. Primeiro, esconderam o nome, como os políticos corruptos omitem doadores. Depois, disseram que o dinheiro teria vindo de uma pessoa que não queria ter seu nome revelado [mesma tática do submundo da corrupção].

Depois, disseram que o evento era custeado com dinheiro de venda de camiseta. Mas aí era preciso responder a novas perguntas: Qual o valor da camiseta? Quantas foram feitas? Quantas foram vendidas? Quanto foi arrecadado? Cadê as notas fiscais das camisetas? Cadê a nota fiscal do trio elétrico? Perguntas que talvez não tivessem respostas.

Por fim, após várias versões, eles disseram que foi a OAB-DF quem pagou.

Era feriado e na marcha não se via pedreiro, nem agricultor, nem garçom. Não havia desempregado, nem eletricista, nem caseiro, nem mecânico, nem gari, nem diarista. Não se via morador de Ceilândia, nem de Santa Maria, São Sebastião ou do Recanto das Emas.

Não havia ninguém descalço, nem esfarrapado, nem banguela. Não tinha gente feia, nem suja, nem pobre. Só tinha gente bonita, a começar pela coordenadora, Dani Kalil, uma bela loira, agora famosa, entrevistada por toda a imprensa.

A marcha tinha cheiro de perfumes e desodorantes de classe média. Era a marcha das corrupçõezinhas nossas de cada dia contra a corrupçãozona dos outros [os políticos, que não estavam ali nem estavam chegando].

Quando fui embora, saindo do calçadão da Praça dos Três Poderes, vi a última cena da passeata: um jovem vestido de preto, de aparência saudável, entrou em seu carro limpinho e bonitinho, estacionado numa vaga reservada a deficiente.

Este moço, você e eu, enfim, todos nós [porque eu também não sou santo nem Santos] precisamos fazer uma marcha anticorrupção dentro de nós mesmos. Por fim, uma frase que não sei se é de Gandhi ou do Dalai Lama: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”.
(*) Marcelo Torres, autor do livro “O bê-á-bá de Brasília” – e-mail marcelocronista@gmail.com. Se repassar, não altere o texto e mantenha os dados do autor.

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Brincadeira Neomodernista

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Márcio Leal

Lânguida silhueta
urdindo entre lembranças várias,
clamo oportunidades;
inseparáveis, por ora, os corpos
arrebatam no coração saudades,
nuca antes percebidas como
amor
,
espoliadas por temores que
um dia ainda virão a ocorrer.

Trejeitos, postura…
eloqüentes surpresas sem palavras.

A ínfima convivência torna-se infinita,
mesmo com a distância adquirida
ou a frieza de meus atos.

Márcio Leal

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Beijo Cosmogônico

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Sérgio Lima

Falando a língua do mundo
Faz tempo bom em Gaia
Bola, cerveja, carnaval, Poesia
Etílico desvio dispersão diapasão

Traçado na linha do horizonte
Círculos, retas, paralelas tortas
Diagonais temporais, agonia demais
Passa quando te dou um beijo.

Sérgio Lima

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Num voo com as excelências baianas até Brasília

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Marcelo Torres

Terça-feira é o dia em que as excelências baianas – não agravando a todos – viajam para Brasília. Se soubesse disso antes, eu não viajaria naquele 8 de setembro; ora, eu estava de férias na Bahia e não precisava voltar tão cedo, ainda mais daquele jeito, imprensado entre cobras e raposas engravatadas.

Com o ambiente ‘impistiado’ por essas lentíssimas ‘otoridades’ que ganham mandatos à base de dinheiro, eu pus os pés no tapete vermelho da TAM e falei baixinho “se segura que lá vai madeira”.

Na entradinha do avião, a comissária deu o bom dia mecânico e o risinho maquinal de sempre. Botei a cabecinha dentro (do avião) e logo vi duas indefectíveis excelências baianas, o “democrata” ACM Neto e o “republicano” José Carlos Araújo, ambos naquela moral de jegue.

[Com democratas e republicanos desse naipe, estamos muito bem...]

Eles não me viram, mas eu os vi, e me benzi, por via das dúvidas, e depois cruzei o dedão com o fura-bolo para que eles não me dessem bom dia; depois vi que nem precisava tanta figa, suas excelências não dão ousadia a gente da minha laia, que anda de chinelo em avião.

Enquanto os passageiros iam entrando, se acomodando, ACM Neto e JC Araújo estavam entre as poltronas 2D e 3D, dialogando baixinho, talvez sobre ética e decoro, já que foram ‘elegidos’ pelos pares (e pelos ímpares) como corregedor geral da Câmara e presidente do Conselho de Ética da Casa, respectivamente.

[Com guardiões da ética e do decoro desse naipe, estamos bem...]

Aí o passageiro da poltrona 3D chegou, as duas excelências tiveram que parar o papo e JC foi procurar seu lugar, umas três fileiras atrás. Então, o pequenino ACM Neto sentou e ficou engolido pela poltrona, que não era um trono, afinal, reinado morto, reinado posto.

[Como santo de casa não faz milagre, o Santo Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto não fez o milagre da multiplicação dos votos em Salvador e ficou em terceiro lugar para prefeito, atrás de um Carneiro e um Pinheiro. Mas, verdade seja dita, em Brasília seu santo é forte, ele é um dos cardeais do Demo, faz parte do alto clero da Câmara baixa e é uma das eminências pardas do Congresso Nacional.]

De camiseta, bermuda e chinelo, eu sentei na poltrona 3C, corredor. Ao meu lado, João Almeida (PSDB), com sua fala interiorana (ele é de Brejões), sua aparência de homem simples, calça e camisa sociais, em gritante contraste com os outros, engomados, penteados e barbeados.

Fiquei pensando em Neto e Araújo como guardiões da ética e do decoro. Duas raposas políticas tomando conta do galinheiro legislativo. Dois raposos, sendo um raposinho e um raposão.

Na Câmara (e no Senado) há um órgão decorativo chamado Conselho de Ética e Decoro Parlamentar (um oxímoro), uma coisa que só existe porque tem que existir. Mas é uma farsa.

Os deputados (e não só eles) estão se lixando para o povo, em nome de quem o poder deveria ser exercido. Esperar ética e decoro dessa gente que está aí é acum in meta foeni quaerere, ou seja, procurar agulha em palheiro ou esperar que em galinha nasça dente.

Os éticos deste Congresso cabem num Land Rover ou num Fiat Elba.

[Ressalte-se: o Legislativo, como instituição, é fundamental, é necessário e coisa e tal. Mas, vamos e convenhamos, o Legislativo abunda de mensaleiros, sanguessugas, ladrões, malfeitores, corruptos e desviadores de verbas.]

O corregedor Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto é do antigo pê-fê-lê, sigla filha do PDS, neta da Arena, da ditadura, mas se rebatizou como Democratas, o DEM ou “Demo”. Olha só que ironia: filhos e netos da ditadura hoje são chamados de “democratas”, por serem do Demo.

Já o deputado Araújo é do PR, que no papel – e só no papel – é um “Partido Republicano”, uma sigla que ajunta uma catrupia de deputados nada republicanos – a começar por Edmar Moreira, aquele do castelo, que desviou verba, mas foi inocentado pelos seus comparsas.

Bem, puxei papo com o deputado João Almeida, falei de uma amiga em comum (Zinda Perru, jornalista)…

Enquanto isso, outras excelências iam entrando. Zezéu Ribeiro, do PT, todo grandão, fortão, passou reto, fechado, ignorando a ilustre presença de ACM Neto, que retribui na mesma moeda, ou seja, a indiferença.

Já o petista Sérgio Carneiro, filho do senador e ex-governador João Durval, chegou todo na beca, mais alinhado que meio fio, e saudou discretamente o neto de ACM. “Tudo bem?” “Tudo bem”.

Depois vi, lá na primeira fila, um moço todo engomado, metido num terno impecável, e a quem todos cumprimentavam; era sua excelência, o deputado João Carlos Bacelar, uma otoridade que adora viajar, principalmente com passagens pagas pelos cidadãos brasileiros.

Bacelar foi um dos 19 deputados baianos que caíram na farra das passagens aéreas da Câmara. Sua excelência usou 22 passagens para si e para parentes e aderentes, que viajaram por Oropas, França e Miami, com passagens pagas pelo povo.

[Três quartos dessa gentalha, esses parlamentares, não valem uma banda de conto furada, não são flores que se cheirem, para não dizer que são mais de 300 picaretas.]

[É um rebain de excelências com ficha corrida, mandatos comprados, abusos de poder, uso da máquina, farra de passagens aéreas, desvios de verbas indenizatórias, retenção de salários de gabinete, comissão (propinas, subornos) de 5% a 15% em emendas parlamentares...]

“O próximo, por favor!” (o próximo escândalo).

Outro dia, numa marcha de prefeitos até a capital, evento que reuniu muitas excelências municipais, estaduais e federais, eu estava num táxi, com o trânsito parado e começou a tocar numa FM de Brasília:

Se gritar ‘pega ladrão’
Não fica um, meu irmão.
Se gritar ‘pega ladrão’
Não fica um

Eu ri, me deliciei com a “coincidência”. E aí o taxeiro lascou ni banda:

“Entre um deputado e um cachorro, prefiro o cachorro”, esbravejou ele, que conhece muitos políticos brasileiros em Brasília. E ainda completou: “Que os cachorros me perdoem pela má comparação”.

Isso é triste, é ruim para a política, mas é a mais pura realidade.

O vôo…

Lá pelas tantas, peguei o deputado Almeida para cristo e disse a ele o que queria dizer a todas as excelências. Antes, por medida de segurança, puxei o encosto da poltrona para a posição vertical, afivelei bem o cinto e soltei as cajás: “A representação política no Brasil é uma farsa”, falei baixinho, para não criar um rebu em pleno voo.

O deputado, que também estava na posição vertical e com cinto afivelado, franziu a testa, levantou uma sobrancelha, os olhos voando faísca, a cara de injuriado diante de tamanha petulância de um “bostético”.

[Bostético, no dizer de um amigo, significa cidadão de bosta.]

Continuei minha fala atrevida: “O mandato é uma representação coletiva e não um bem particular. Mas suas excelências exercem um mandato público como se este fosse uma propriedade privada…”

Ele pediu um aparte, mas eu segui falando: “Suas excelências recebem uma procuração e não votam de acordo com a vontade dos seus representados. Olhaí o escândalo Sarney. Se os senadores (do PT e dos demais partidos) ouvissem os cidadãos que lhes deram procuração (voto), teriam cassado o mandato dele. Que representação é esta, na qual o representante não faz a vontade dos seus representados?”

Naquelas alturas, o deputado se bulia inquieto, queria um aparte e eu falando desembestado (como um bostético vingador). Se ele, o deputado, me mandasse à merda, eu lhe diria que na merda eu já estava, aliás, nós brasileiros já estamos.

Aliás, quem disse que estamos na merda foi o próprio presidente Lula, e não falou nenhuma mentira, embora muitos políticos de merda o condenem (é impróprio e deselegante um presidente falar merda, mas Lula é “o cara” porque fala o que o povo quer ouvir, na linguagem do povo, do povo que esá na merda há tanto tempo).

Se ele, o deputado, mandasse eu procurar meu lugar, eu diria que, pelo menos até a chegada ao aeroporto, meu lugar era aquele ali mesmo, a poltrona 3C, conforme bilhete de passagem, que, aliás, tinha sido paga do meu próprio bolso, do meu cartão de crédito em seis vezes sem juros, e não pela cota de alguma excelência.

Mas o deputado, enfim, falou, retado da vida, abespinhado, exasperado, virado na desgraça. E disse aquilo que todo e qualquer deputado fala quando é cobrado por cidadãos. “Não julgue todos por um. Nem todos são iguais. Em qualquer lugar há gente honesta e desonesta. Quem elegeu foi o povo…” e pê-pê-pê, caixa de fósforo.

Depois, talvez querendo desqualificar meu voto, o deputado perguntou em quem votei. Qualquer nome que eu dissesse (fosse Cristo ou Satanás), ele passaria na minha cara: “Ah!, peraê, você vota no deputado errado e ainda vem cobrar dos outros?”.

Até parece que, a depender de em quem você vota, você tem ou não tem direito de cobrar, como se você só pudesse cobrar do seu candidato. Até parece que não temos o direito de exigir conduta republicana de todas as excelências.

Mas é claro que temos o direito de cobrar de todos os 513 deputados, os 81 senadores, e mais ministros de Estado,o Presidente da República, governadores, prefeitos, enfim todos.

E quando o avião estava pousando, todo mundo abrindo cintos e levantando, naquela pressa que todos ficam nessa hora (apesar do pedido para que todos permaneçam sentados, com cinto afivelado, até a parada total da aeronave), eu também levantei.

“Anulei meu voto”, eu disse isso e me piquei, para não ouvir sugesta do deputado, pois não sou oreba de ficar comendo agá de ninguém; fui lá para frente, esperar a abertura da porta dianteira (passageiros de avião parecem uma boiada esperando a porteira abrir).

Ali na frente, ainda vi dois passageiros pedindo ao corregedor para ele votar contra a vergonhosa criação de 8.000 cargos de vereador. Mas Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto falou firme, mascando um chiclete (sem banana): “Eu sou sincero, vou votar a favor”.

E ele votou mesmo, aliás, 380 votaram – e nenhum respeitou a opinião dos seus eleitores. Já eu, que não fui, não sou nem serei eleitor deles, voltei para minha insignificância, porém, radiante de felicidade por viajar ao lado de gente tããão fina, elegante e sincera…

Marcelo Torres

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Poeminha pruma cidadezona

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Marcelo Torres

Um ovo de codorna
É uma cidadezinha

Uma terra de ninguém
É uma cidadezona

Uns filhos da mãe
E filhinhos de papai

Brasília

É um deserto
Do mar é longe
Do céu é perto

Ê, Brasília
Singular e plural
Capital e interior
Letrada, iletrada
Passado, futuro
Mato e concreto
Poder sem pudor
Ódio e amor

Brasília
- Ame-a ou deixe-a

Ê, Brasília
Palácios e miséria
Sol e chuva
Luxo e lixo

Brasília é tudo isso

Tudo perto
e
Tudo longe

Ê, Brasília
Gente, tanta gente
Goiano, catarinense, baiano
Argentino, canadense, palestino
Oriente, Ocidente
Gente de toda parte

Brasília é arte
É verso e prosa
É verbo e verba

Eita Brasília

De curvas e retas
De quadras e quadros
De eixos e blocos
De siglas e números

O motorista pára na faixa
- Na passarela, a cidadania!
Aqui ninguém dá boa noite
Nem boa tarde ou bom dia.

- Brasília é uma cidade fria

Aqui ninguém buzina
Cadê a esquina?
E a menina na janela?
Cadê o bairro?
Cadê a rua?

- Brasília, uma cidade nua
E crua

Numa casa chove
Na outra faz sol
Numa hora faz frio
Na outra faz calor

Num dia dizem “E a chuva que não vem!”
No outro é “E essa chuva que não vai!”

Brasília

Esse avião que não voa
Essa tesoura que não corta
Esse balão que não sobe
Esse pardal que não canta

Sexo, droga, rock’n'roll

Ê, Brasília
Um céu que é mar
Coração do Brasil
Provinciana, cosmopolita
Cartesiana, bonita
Traço do arquiteto
Obra de sonhador
Estética futurista
Concretista
Pós-modernista

Brasília
Linda até no nome
Palavra feminina
Brasília é Brasil no feminino
Cidade com nome de mulher
Corpo de avião
Asas para voar

Ê, Brasília!

Marcelo Torres

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Uppbrottslingar

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Aqui estou … Vazia. Ontem um bosque e flores, muitas flores.
Uma borboleta azul no meio de um arco-íris.
Melancolia. Borboleta do sonho. Pareces com a minha alma Saudades.
O impossível é atraente.
Em outro tempo, em outro bosque, uma borboleta azul .
O meu coração parou.
Pensou, lembrou. Foi assim.
Era um mês de abril
Ontem dezembro.
Era outono, ontem verão.
Borboletas azuis.
Flores.
Outras estações

Lygia Boudoux

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Róseos de Vênus

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Branco travertino
Páris julgou perfeita
Curvas sinuosas
Dois botões de rosa
Cor-de-rosa
O beija-flor se encanta
Não acredita no que vê
Suga-lhe o néctar
Surgem estrelas
Magia de princesa

Lygia Boudoux

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Porão Secreto

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Roupas leves
Sopa quente
Flores perfumadas
Orvalho ao entardecer
Paradoxo do amor
Flor de laranjeira
Aroma de baunilha
Cheiro de lavanda
As flores estão no porão
Não posso abri-lo
A essência está em mim

Lygia Boudoux

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