Brincadeira Neomodernista

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Márcio Leal

Lânguida silhueta
urdindo entre lembranças várias,
clamo oportunidades;
inseparáveis, por ora, os corpos
arrebatam no coração saudades,
nuca antes percebidas como
amor
,
espoliadas por temores que
um dia ainda virão a ocorrer.

Trejeitos, postura…
eloqüentes surpresas sem palavras.

A ínfima convivência torna-se infinita,
mesmo com a distância adquirida
ou a frieza de meus atos.

Márcio Leal

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Beijo Cosmogônico

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Sérgio Lima

Falando a língua do mundo
Faz tempo bom em Gaia
Bola, cerveja, carnaval, Poesia
Etílico desvio dispersão diapasão

Traçado na linha do horizonte
Círculos, retas, paralelas tortas
Diagonais temporais, agonia demais
Passa quando te dou um beijo.

Sérgio Lima

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Num voo com as excelências baianas até Brasília

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Marcelo Torres

Terça-feira é o dia em que as excelências baianas – não agravando a todos – viajam para Brasília. Se soubesse disso antes, eu não viajaria naquele 8 de setembro; ora, eu estava de férias na Bahia e não precisava voltar tão cedo, ainda mais daquele jeito, imprensado entre cobras e raposas engravatadas.

Com o ambiente ‘impistiado’ por essas lentíssimas ‘otoridades’ que ganham mandatos à base de dinheiro, eu pus os pés no tapete vermelho da TAM e falei baixinho “se segura que lá vai madeira”.

Na entradinha do avião, a comissária deu o bom dia mecânico e o risinho maquinal de sempre. Botei a cabecinha dentro (do avião) e logo vi duas indefectíveis excelências baianas, o “democrata” ACM Neto e o “republicano” José Carlos Araújo, ambos naquela moral de jegue.

[Com democratas e republicanos desse naipe, estamos muito bem...]

Eles não me viram, mas eu os vi, e me benzi, por via das dúvidas, e depois cruzei o dedão com o fura-bolo para que eles não me dessem bom dia; depois vi que nem precisava tanta figa, suas excelências não dão ousadia a gente da minha laia, que anda de chinelo em avião.

Enquanto os passageiros iam entrando, se acomodando, ACM Neto e JC Araújo estavam entre as poltronas 2D e 3D, dialogando baixinho, talvez sobre ética e decoro, já que foram ‘elegidos’ pelos pares (e pelos ímpares) como corregedor geral da Câmara e presidente do Conselho de Ética da Casa, respectivamente.

[Com guardiões da ética e do decoro desse naipe, estamos bem...]

Aí o passageiro da poltrona 3D chegou, as duas excelências tiveram que parar o papo e JC foi procurar seu lugar, umas três fileiras atrás. Então, o pequenino ACM Neto sentou e ficou engolido pela poltrona, que não era um trono, afinal, reinado morto, reinado posto.

[Como santo de casa não faz milagre, o Santo Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto não fez o milagre da multiplicação dos votos em Salvador e ficou em terceiro lugar para prefeito, atrás de um Carneiro e um Pinheiro. Mas, verdade seja dita, em Brasília seu santo é forte, ele é um dos cardeais do Demo, faz parte do alto clero da Câmara baixa e é uma das eminências pardas do Congresso Nacional.]

De camiseta, bermuda e chinelo, eu sentei na poltrona 3C, corredor. Ao meu lado, João Almeida (PSDB), com sua fala interiorana (ele é de Brejões), sua aparência de homem simples, calça e camisa sociais, em gritante contraste com os outros, engomados, penteados e barbeados.

Fiquei pensando em Neto e Araújo como guardiões da ética e do decoro. Duas raposas políticas tomando conta do galinheiro legislativo. Dois raposos, sendo um raposinho e um raposão.

Na Câmara (e no Senado) há um órgão decorativo chamado Conselho de Ética e Decoro Parlamentar (um oxímoro), uma coisa que só existe porque tem que existir. Mas é uma farsa.

Os deputados (e não só eles) estão se lixando para o povo, em nome de quem o poder deveria ser exercido. Esperar ética e decoro dessa gente que está aí é acum in meta foeni quaerere, ou seja, procurar agulha em palheiro ou esperar que em galinha nasça dente.

Os éticos deste Congresso cabem num Land Rover ou num Fiat Elba.

[Ressalte-se: o Legislativo, como instituição, é fundamental, é necessário e coisa e tal. Mas, vamos e convenhamos, o Legislativo abunda de mensaleiros, sanguessugas, ladrões, malfeitores, corruptos e desviadores de verbas.]

O corregedor Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto é do antigo pê-fê-lê, sigla filha do PDS, neta da Arena, da ditadura, mas se rebatizou como Democratas, o DEM ou “Demo”. Olha só que ironia: filhos e netos da ditadura hoje são chamados de “democratas”, por serem do Demo.

Já o deputado Araújo é do PR, que no papel – e só no papel – é um “Partido Republicano”, uma sigla que ajunta uma catrupia de deputados nada republicanos – a começar por Edmar Moreira, aquele do castelo, que desviou verba, mas foi inocentado pelos seus comparsas.

Bem, puxei papo com o deputado João Almeida, falei de uma amiga em comum (Zinda Perru, jornalista)…

Enquanto isso, outras excelências iam entrando. Zezéu Ribeiro, do PT, todo grandão, fortão, passou reto, fechado, ignorando a ilustre presença de ACM Neto, que retribui na mesma moeda, ou seja, a indiferença.

Já o petista Sérgio Carneiro, filho do senador e ex-governador João Durval, chegou todo na beca, mais alinhado que meio fio, e saudou discretamente o neto de ACM. “Tudo bem?” “Tudo bem”.

Depois vi, lá na primeira fila, um moço todo engomado, metido num terno impecável, e a quem todos cumprimentavam; era sua excelência, o deputado João Carlos Bacelar, uma otoridade que adora viajar, principalmente com passagens pagas pelos cidadãos brasileiros.

Bacelar foi um dos 19 deputados baianos que caíram na farra das passagens aéreas da Câmara. Sua excelência usou 22 passagens para si e para parentes e aderentes, que viajaram por Oropas, França e Miami, com passagens pagas pelo povo.

[Três quartos dessa gentalha, esses parlamentares, não valem uma banda de conto furada, não são flores que se cheirem, para não dizer que são mais de 300 picaretas.]

[É um rebain de excelências com ficha corrida, mandatos comprados, abusos de poder, uso da máquina, farra de passagens aéreas, desvios de verbas indenizatórias, retenção de salários de gabinete, comissão (propinas, subornos) de 5% a 15% em emendas parlamentares...]

“O próximo, por favor!” (o próximo escândalo).

Outro dia, numa marcha de prefeitos até a capital, evento que reuniu muitas excelências municipais, estaduais e federais, eu estava num táxi, com o trânsito parado e começou a tocar numa FM de Brasília:

Se gritar ‘pega ladrão’
Não fica um, meu irmão.
Se gritar ‘pega ladrão’
Não fica um

Eu ri, me deliciei com a “coincidência”. E aí o taxeiro lascou ni banda:

“Entre um deputado e um cachorro, prefiro o cachorro”, esbravejou ele, que conhece muitos políticos brasileiros em Brasília. E ainda completou: “Que os cachorros me perdoem pela má comparação”.

Isso é triste, é ruim para a política, mas é a mais pura realidade.

O vôo…

Lá pelas tantas, peguei o deputado Almeida para cristo e disse a ele o que queria dizer a todas as excelências. Antes, por medida de segurança, puxei o encosto da poltrona para a posição vertical, afivelei bem o cinto e soltei as cajás: “A representação política no Brasil é uma farsa”, falei baixinho, para não criar um rebu em pleno voo.

O deputado, que também estava na posição vertical e com cinto afivelado, franziu a testa, levantou uma sobrancelha, os olhos voando faísca, a cara de injuriado diante de tamanha petulância de um “bostético”.

[Bostético, no dizer de um amigo, significa cidadão de bosta.]

Continuei minha fala atrevida: “O mandato é uma representação coletiva e não um bem particular. Mas suas excelências exercem um mandato público como se este fosse uma propriedade privada…”

Ele pediu um aparte, mas eu segui falando: “Suas excelências recebem uma procuração e não votam de acordo com a vontade dos seus representados. Olhaí o escândalo Sarney. Se os senadores (do PT e dos demais partidos) ouvissem os cidadãos que lhes deram procuração (voto), teriam cassado o mandato dele. Que representação é esta, na qual o representante não faz a vontade dos seus representados?”

Naquelas alturas, o deputado se bulia inquieto, queria um aparte e eu falando desembestado (como um bostético vingador). Se ele, o deputado, me mandasse à merda, eu lhe diria que na merda eu já estava, aliás, nós brasileiros já estamos.

Aliás, quem disse que estamos na merda foi o próprio presidente Lula, e não falou nenhuma mentira, embora muitos políticos de merda o condenem (é impróprio e deselegante um presidente falar merda, mas Lula é “o cara” porque fala o que o povo quer ouvir, na linguagem do povo, do povo que esá na merda há tanto tempo).

Se ele, o deputado, mandasse eu procurar meu lugar, eu diria que, pelo menos até a chegada ao aeroporto, meu lugar era aquele ali mesmo, a poltrona 3C, conforme bilhete de passagem, que, aliás, tinha sido paga do meu próprio bolso, do meu cartão de crédito em seis vezes sem juros, e não pela cota de alguma excelência.

Mas o deputado, enfim, falou, retado da vida, abespinhado, exasperado, virado na desgraça. E disse aquilo que todo e qualquer deputado fala quando é cobrado por cidadãos. “Não julgue todos por um. Nem todos são iguais. Em qualquer lugar há gente honesta e desonesta. Quem elegeu foi o povo…” e pê-pê-pê, caixa de fósforo.

Depois, talvez querendo desqualificar meu voto, o deputado perguntou em quem votei. Qualquer nome que eu dissesse (fosse Cristo ou Satanás), ele passaria na minha cara: “Ah!, peraê, você vota no deputado errado e ainda vem cobrar dos outros?”.

Até parece que, a depender de em quem você vota, você tem ou não tem direito de cobrar, como se você só pudesse cobrar do seu candidato. Até parece que não temos o direito de exigir conduta republicana de todas as excelências.

Mas é claro que temos o direito de cobrar de todos os 513 deputados, os 81 senadores, e mais ministros de Estado,o Presidente da República, governadores, prefeitos, enfim todos.

E quando o avião estava pousando, todo mundo abrindo cintos e levantando, naquela pressa que todos ficam nessa hora (apesar do pedido para que todos permaneçam sentados, com cinto afivelado, até a parada total da aeronave), eu também levantei.

“Anulei meu voto”, eu disse isso e me piquei, para não ouvir sugesta do deputado, pois não sou oreba de ficar comendo agá de ninguém; fui lá para frente, esperar a abertura da porta dianteira (passageiros de avião parecem uma boiada esperando a porteira abrir).

Ali na frente, ainda vi dois passageiros pedindo ao corregedor para ele votar contra a vergonhosa criação de 8.000 cargos de vereador. Mas Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto falou firme, mascando um chiclete (sem banana): “Eu sou sincero, vou votar a favor”.

E ele votou mesmo, aliás, 380 votaram – e nenhum respeitou a opinião dos seus eleitores. Já eu, que não fui, não sou nem serei eleitor deles, voltei para minha insignificância, porém, radiante de felicidade por viajar ao lado de gente tããão fina, elegante e sincera…

Marcelo Torres

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Poeminha pruma cidadezona

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Marcelo Torres

Um ovo de codorna
É uma cidadezinha

Uma terra de ninguém
É uma cidadezona

Uns filhos da mãe
E filhinhos de papai

Brasília

É um deserto
Do mar é longe
Do céu é perto

Ê, Brasília
Singular e plural
Capital e interior
Letrada, iletrada
Passado, futuro
Mato e concreto
Poder sem pudor
Ódio e amor

Brasília
- Ame-a ou deixe-a

Ê, Brasília
Palácios e miséria
Sol e chuva
Luxo e lixo

Brasília é tudo isso

Tudo perto
e
Tudo longe

Ê, Brasília
Gente, tanta gente
Goiano, catarinense, baiano
Argentino, canadense, palestino
Oriente, Ocidente
Gente de toda parte

Brasília é arte
É verso e prosa
É verbo e verba

Eita Brasília

De curvas e retas
De quadras e quadros
De eixos e blocos
De siglas e números

O motorista pára na faixa
- Na passarela, a cidadania!
Aqui ninguém dá boa noite
Nem boa tarde ou bom dia.

- Brasília é uma cidade fria

Aqui ninguém buzina
Cadê a esquina?
E a menina na janela?
Cadê o bairro?
Cadê a rua?

- Brasília, uma cidade nua
E crua

Numa casa chove
Na outra faz sol
Numa hora faz frio
Na outra faz calor

Num dia dizem “E a chuva que não vem!”
No outro é “E essa chuva que não vai!”

Brasília

Esse avião que não voa
Essa tesoura que não corta
Esse balão que não sobe
Esse pardal que não canta

Sexo, droga, rock’n'roll

Ê, Brasília
Um céu que é mar
Coração do Brasil
Provinciana, cosmopolita
Cartesiana, bonita
Traço do arquiteto
Obra de sonhador
Estética futurista
Concretista
Pós-modernista

Brasília
Linda até no nome
Palavra feminina
Brasília é Brasil no feminino
Cidade com nome de mulher
Corpo de avião
Asas para voar

Ê, Brasília!

Marcelo Torres

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Uppbrottslingar

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Aqui estou … Vazia. Ontem um bosque e flores, muitas flores.
Uma borboleta azul no meio de um arco-íris.
Melancolia. Borboleta do sonho. Pareces com a minha alma Saudades.
O impossível é atraente.
Em outro tempo, em outro bosque, uma borboleta azul .
O meu coração parou.
Pensou, lembrou. Foi assim.
Era um mês de abril
Ontem dezembro.
Era outono, ontem verão.
Borboletas azuis.
Flores.
Outras estações

Lygia Boudoux

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Róseos de Vênus

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Branco travertino
Páris julgou perfeita
Curvas sinuosas
Dois botões de rosa
Cor-de-rosa
O beija-flor se encanta
Não acredita no que vê
Suga-lhe o néctar
Surgem estrelas
Magia de princesa

Lygia Boudoux

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Porão Secreto

Posted by marcio_leal in Jan 17, 2010, under Lygia Boudoux

Roupas leves
Sopa quente
Flores perfumadas
Orvalho ao entardecer
Paradoxo do amor
Flor de laranjeira
Aroma de baunilha
Cheiro de lavanda
As flores estão no porão
Não posso abri-lo
A essência está em mim

Lygia Boudoux

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Ganhador da Mega-Sena é meu ex-amigo Luiz

Posted by marcio_leal in Jan 10, 2010, under Marcelo Torres

Olha só como é a vida, o filho da puta do brasiliense que ganhou mais de R$ 72 milhões na Mega-Sena de fim de ano é um ex-amigo meu. O nome dele é Luiz, um publicitário que até quinta-feira passada trabalhava ali no Setor Bancário Sul. Só não sei – nem quero saber – onde ele mora, morava ou vai morar.

Não, ele não passou a ser inimigo – só deixou de ser amigo. Como você sabe, ou deveria saber, a pessoa que ganha uma bufunfa dessa esquece de tudo. A vida vira de cabeça para baixo, quem não era seu amigo passa a ser, ele dá aquela banana para a vida de antes, vira outra pessoa, fica com medo de todos, principalmente dos amigos e parentes, que só aparecem para pedir ajuda.

Na quinta-feira, último dia de 2009, ali pelas três da tarde, passei no Libanus, na 206 Sul, para tomar a última do ano com os amigos de pé de balcão.

Todo sujeito que nem eu, que se muda para Brasília adulto e solteiro, aqui só cultiva dois tipos de amizades: aquelas feitas em pé de balcão ou mesa de bar, que são os amigos de copo; e aquelas feitas no trabalho, ou seja, amigos de cruz ou colegamigos. Tudo bem, há outras categorias (colegas de igreja, de curso, de academia, de trilhas), mas aquelas são as principais. Em Brasília, quem não faz esse tipo de amizade vive reclamando de tudo, quando poderia pegar os paninhos de bunda e ir embora, voltar para sua Pasárgada ou Maracangalha.

Luiz era um desses amigos de copo, amigos de pé de balcão, que são os melhores – e os piores também. Nós nos conhecemos num pé-sujo, a barraca de churrasquinho de gato que ele chamava (será que ainda chama?) Valdeci Stake House, na Praça do Cebolão, Setor Bancário Sul, debaixo da laje da Galeria dos Estados.

Na verdade, eu o conheci através do Rocha, colega de Banco do Brasil, que é colegamigo de Roberto Baiano, que era (é) meu conterrâneo, amigo de sala e cozinha, amigo de convidar para tudo, de ir na casa um do outro, de vestir a camisa emprestada, amigo de se falar quase todo santo dia.

Pela ordem, a coisa foi assim: sou amigo de Roberto, que é colegamigo de Rocha, que é colega-compadre de Luiz. Trabalhávamos próximos e batíamos ponto toda santa sexta-feira, ao final do expediente, na barraca de churrasquinho de gato, que ficava a poucos metros do batente.

Eu sempre estava ali às sextas, contando desvantagens, recontando causos, descontando mentiras, floreando histórias. Numa sexta em que Luiz não foi, Rocha já chegou me indagando se eu queria trabalhar na Presidência da República…

… Dias depois a Presidência me requisitou e eu fui trabalhar lá.

Depois disso, nossos encontros na velha barraca escassearam. Eu estava a muitos quarteirões, Roberto começou a fazer Direito à noite, Rocha se aposentou e sumiu; Luiz, sem o compadre-amigo, nunca mais apareceu ali.

Mas, apesar de termos sumido, de vez em quando eu encontrava Luiz em algum boteco da Asa Sul – um sábado meio-dia no Líbanus, um domingo fim de tarde no Antártida (bar de flamenguistas como ele), um happy-hour quinta no Na Venda.

Na tarde da última quinta, 31 de dezembro de 2009, passei no Líbanus, pois sabia que lá encontraria amigos de pé de balcão, amigos de amigos, amigos de Orkut ou e-mail, colegas, conhecidos e o Carvalho (conhece o Carvalho?).

Roberto estava lá, com Celso, Sérgio e outros colegas de trabalho. Luiz estava em outra mesa, com o irmão Allan e outros amigos. Nesta última, com tantos cuecas reunidos, e sob efeito da loira gelada, a pauta tinha tudo para ser o “mucafudin”, ou seja, mulé, carro, futibó e dindin, mas acabou sendo só a Mega- Sena, que, afinal, contempla os quatro itens da “mucafundança”.

Foi quando passou pela calçada uma vendedora de apostas, uma senhorinha de seus setenta para oitenta anos. Luiz comprou o último cartão, pelo qual ela pagou dois reais na lotérica e vendeu a ele por cinco. De repente Luiz ficou muito alegre, mandou descer mais uma, mais uma, mais uma, pagou tudo e passou a se despedir.

Antes de ir, disse que me daria um carro zero, e prometeu uma coisa diferente para cada pessoa ali; até para o garçom, que não pediu nada, ele prometeu um dinheirinho, não 10%, mas um adjutoriozinho de nada. “Você merece, sempre me atendeu bem”. Depois saiu alegre, saltitante, vencedor, com a testa para a lua.

Quando vi a notícia de que um dos dois ganhadores da bufufinha de R$ 144 milhões era de Brasília, não tive dúvida, o sortudo era Luiz. Como ele não apareceu para trabalhar, não ligou, não deu notícia, não falou com ninguém, tenho certeza que foi ele. O problema é que, como todo mundo que ganha uma bufunfa dessa, Luiz não vai cumprir nenhuma promessa que fez.

Eu não tenho o telefone dele. Mesmo se tivesse, não ligaria para aquele fila-da-mãe. Então, caso ele não ligue, vou morrer achando que foi ele o ganhador. No entanto, se ele ligar, será pra dizer “É, véi, não foi desta vez”.

Marcelo Torres

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Melodia do céu

Posted by marcio_leal in Jan 10, 2010, under Lygia Boudoux

Navega ô Pensador
Após o limbo…
linda Francesca de Rimini
Conveniência Fraude
O amor denunciou
Verdade Mentira
Lancelot&Guinevere
Resistem ao fogo do inferno
Porque é melodia do céu

Lygia Boudoux

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Sonhar é preciso

Posted by marcio_leal in Jan 10, 2010, under Lygia Boudoux

Branco travertino
voz dos deuses
harmonia
O pensamento
escravo da vida
bobo do tempo

Lygia Boudoux

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